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“Às Minhas Lembranças, Elas Que Lutem!!!”

*Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças*

 

[Este artigo contém revelações sobre o enredo do filme, o famoso SPOILER!... Porém, contém também uma reflexão aprofundada, interessante e mais referências. Se você não assistiu o filme é mais do que indicado, mas se você já assistiu e/ou não se importa em (re)ver frases icônicas de grandes filmes, então seu lugar é aqui!!! ^_^ ]

 

Seria o mundo maravilhoso se realmente existisse, assim como no filme, uma empresa chamada Lacuna Incorporated* onde tivesse uma promoção de “Ano Novo, Vida Nova” e pudéssemos apagar nossas memórias de 2019, apagar nossas derrotas, apagar nossos momentos de fraqueza e principalmente... apagar a pessoa ou as pessoas que nos decepcionaram tanto ano passado! Mas se eu te disser que apagar alguém da sua vida é possível e nós já fazemos isso, você acreditaria?!

 

Quando não gostamos mais de alguém ou quando não conseguimos mais lidar com uma pessoa, nós simplesmente paramos de “seguir” essa pessoa nas redes sociais, até ocultamos seus status, stories, postagens e por fim podemos até bloquear definitivamente essa pessoa. Isso é o nosso mecanismo de defesa atual. É o novo método revolucionário para “evitar pessoas tóxicas”, ou um simples “não tenho maturidade pra isso”, ou então aquele famoso “não sou obrigada!!!”.

 

O longa-metragem americano de 2004 intitulado “Eternal Sunshine of the Spotless Mind” é dirigido por Michel Gondry e o roteiro é de Charlie Kaufman. O filme conta a história de um cara chamado Joel, vivido por Jim Carrey, que descobre que foi esquecido pela ex-namorada Clementine, vivida por Kate Winslet, e resolve contratar a mesma empresa que ela para apagar as suas memórias também. Durante o processo de mapear o cérebro, as respostas afetivas e as áreas responsáveis por cada lembrança pessoal, Joel revive os momentos mais conturbados do seu relacionamento com Clementine e percebe que já está no processo de esquecimento, tenta parar o procedimento, tenta resistir e o resultado é simplesmente uma catarse, um expurgo psicológico do seu relacionamento amoroso. Ou seria um exorcismo de si mesmo?!

 

 

De começo, acordar e ver o carro amassado do nada, não lembrar de ter rasgado folhas do próprio caderno (dois anos de anotações) e faltar ao trabalho para ir à uma praia em Montauk são os primeiros passos da caminhada do nosso herói durante a narrativa.  Joel conhece Clementine em um trem de volta para casa, e logo é atraído por ela e vice-versa como mariposas são atraídas pela luz, porém ele é tímido e retraído enquanto ela é despojada e impulsiva. Eles são totalmente opostos em personalidade, mas a paixão não é um processo lógico não é mesmo?!

 

Se alguém quiser entender como funciona a mecânica do amor, eu recomendo que leiam a “Crônica do Amor” de Arnaldo Jabor. Em suma ele diz:

 

“Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.”

           

Enquanto acontecem outras narrativas envolta da trama, percebemos os pontos fortes e os pontos fracos de Joel e Clementine. Ele acha que a vida dele é sem graça e busca algum sentido em algo ou alguém, enquanto Ela diz “Muitos caras acham que eu sou um conceito, ou que eu os completo, ou vou fazê-los se sentirem vivos… Mas eu sou só uma garota ferrada, procurando pela minha própria paz de espírito.”

 

O que eles não sabem é que não só eles mesmos, mas muitos outros personagens em volta estão repetindo o ciclo-infernal-cármico várias, várias e várias vezes. Eles apagam as memórias, apagam o relacionamento e apagam a pessoa por completo das vidas delas. No dia seguinte cada personagem começa a refazer os mesmos passos que os levaram a repetir os mesmos erros. É cíclico. Somente no final do filme é que percebemos essa epopeia sem fim de carmas e erros de histórias que se repetem. Mas afinal de contas, por que se repetem? Porque nos negamos a nos reconhecer. Nos negamos a reconhecer nossos erros e nós somos exatamente o nosso inexorável passado e nossos erros são a matéria-prima mais elegante da evolução, onde à luz de nossa percepção (chamemos de lucidez) podemos então reformar nossas imperfeições.

 

O filme foi criado em cima de vários conceitos, um deles é o poema de Alexander Pope chamado “Eloisa to Abelard” publicado em 1717. Nessa obra o poeta inglês descreve a ruína de um amor proibido vivido na França do século XII. O trecho do poema citado diretamente no filme segue em idioma original e tradução.

 

How happy is the blameless vestal's lot?

The world forgetting, by the world forgot.

Eternal sunshine of the spotless mind.

Each prayer accepted and each wish resigned.

 

Quão feliz é o destino de um inocente sem culpa?

Esquecendo o mundo e por ele sendo esquecido.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças.

Toda prece aceita e todo desejo atendido.

(tradução livre do autor)

 

 

A única forma de quebrar a corrente implacável de causas e efeitos, a famosa reação em cadeia, que vai arrebatando um sujeito e depois outro e depois outro, é substancialmente percebendo quem nós somos. Olhar para nosso passado ao invés de apagá-lo pode ser a chave para abrir esse cadeado de ciclos baixos de péssimos estados de vida. Quando Joel e Clementine recebem uma fita contando toda a verdade por trás da empresa que apagava as suas memórias (talvez não só uma vez), eles passam por um momento de epifania e escolhem se continuam os mesmos de antes, ou se eles podem mudar não ao outro, e sim a si mesmos.

 

Talvez o mundo não mude em 2020, talvez as pessoas a sua volta não mudem nesse novo ano assim como a folha do calendário é capaz de mudar. Mas a questão é... e você? Consegue se reconhecer nesse ciclo repetitivo e exaustivo de erros? Consegue mudar a si mesmo e esquecer os outros por um instante? Talvez o problema não sejam os outros, talvez seja a gente mesmo Não é sobre “apagar” alguém, é sobre transformar a si mesmo!!!

 

Uma dica eu daria se fosse um poeta e não um colunista...

“Aceite o passado...

e Mude o presente...

...

Transforme o futuro!”

 

* A coluna "Cinema nos mínimos D'Thales" é de autoria de Thales Vieira e todo seu conteúdo é de crédito e responsabilidade do autor. 

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