Artistas negras da dança sul-mato-grossense têm trajetórias narradas em documentário ‘Fronteiras’
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Cruzando dança e registro biográfico, produção promove circuito gratuito de exibições e oficinas em Campo Grande e Porto Murtinho neste mês de julho.

(Foto: Bruna Motta e Cainã Siqueira)
Quais corpos têm o direito de ocupar a imagem, a memória e a narrativa? Esse é o questionamento que o projeto audiovisual “Fronteiras”, que chega em breve ao cenário cultural de Mato Grosso do Sul, propõe tensionar. Com circuito de exibições e oficinas iniciando neste dia 10 de julho, o filme fricciona a relação entre corpo e espaço ao fundir a performance da dança à urgência do registro biográfico, confrontando o silenciamento histórico imposto a existências dissidentes.
Para além das telas, o projeto transborda para o campo formativo com ações integradas que percorrem os territórios de circulação da obra. Em Campo Grande, a programação começa no dia 10 de julho, às 20h, com a exibição do filme no Tampa Espaço Criativo (Rua 14 de julho, 2526). Na sequência, nos dias 15, 16 e 17 de julho, das 18h30 às 20h30, os diretores Raylson Chaves e Ralfer Campagna ministram a "Oficina de Criação de Roteiros de Documentário: fronteiras entre o audiovisual e a dança" no MIS-MS (Museu da Imagem e do Som de Mato Grosso do Sul), localizado na Av. Fernando Corrêa da Costa, 559 (3º Andar).
A rota formativa e de difusão segue em direção a Porto Murtinho no dia 18 de julho, no Cine Teatro Ney Machado Mesquita (Rua Coronel Pedro Celestino, nº 20), com a realização da oficina em dois turnos: das 09h às 11h e das 14h às 17h. Logo em seguida, às 17h, acontece a exibição gratuita do documentário no mesmo local.
Com carga horária total de 6h, a atividade — ministrada em conjunto por Raylson Chaves e Ralfer Campagna — propõe uma introdução prática à construção de roteiros documentais, pensando nas relações entre corpo, movimento, memória, cena e imagem, com atenção especial às possibilidades de diálogo entre a linguagem audiovisual e a dança, sendo as ações formativas preferencialmente voltadas à comunidade negra e LGBTQIAPN+.
Idealizado e dirigido pelo artista da dança Ralfer Campagna, e pelo cineasta Raylson Chaves, o projeto acompanha processos criativos e práticas artísticas para dar visibilidade a produções frequentemente marginalizadas. A proposta é garantir que essas existências sejam demarcadas na memória coletiva, reconhecendo o protagonismo dessas mulheres como parte fundamental da identidade cultural brasileira.
Para o idealizador Ralfer Campagna, a dança, ao atravessar a construção do filme, fortalece seu posicionamento político, comunicando aquilo que a palavra muitas vezes não alcança: “Há coisas que não se dizem, se atravessam, se sentem e se manifestam no gesto. O corpo comunica sem precisar passar pela palavra falada ou escrita; ele próprio é a linguagem.
Cada movimento carrega memória e identidade, produzindo sentidos e leituras de mundo. Nesse contexto, a presença da dança e das produções das artistas no filme reafirma o legado que elas seguem construindo no Estado. É uma outra forma de fruir e contar suas histórias por meio do movimento”, afirma Campagna.

A narrativa do documentário se estrutura a partir das vivências de Luara Maria e Rose Mendonça — mulheres negras, travesti e cisgênera —, cujas trajetórias desafiam normas e celebram a pluralidade das feminilidades negras. Do realismo documental à efemeridade da dança, o projeto prioriza a trajetória de jovens artistas que constroem diariamente suas histórias na cena, ampliando o campo de referências artísticas e afirmando suas presenças na memória cultural.
Essa escolha estética permite que a prática guiada pelas protagonistas transforme a imagem em ferramenta política, transbordando o projeto para além das telas através de ações formativas que percorrem os territórios de circulação da obra.
A captação percorreu uma cartografia que conecta o cotidiano urbano de Campo Grande, como o Parque Ayrton Senna, à força geográfica do Rio Paraguai localizado em Porto Murtinho, registrando espaços transfronteiriços que atravessam e constituem as vivências das artistas.

A produção é financiada pela Lei Paulo Gustavo, via Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS), pela Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura de MS e pelo Governo Federal. Conta com apoio da Pantanal Film Comission, Prefeitura Municipal de Porto Murtinho e a empresa NFoods. A co-produção é do Plataforme-se, plataforma de criação artística e produção cultural existente desde 2017 em Campo Grande, e da Produtora ORUM, empresa negra fundada em 2023, que fomenta e celebra a diáspora africana em Mato Grosso do Sul.
A equipe do projeto reúne majoritariamente profissionais negros e LGBTQIAPN+ de Campo Grande, valorizando agentes culturais locais. Além da direção, Ralfer Campagna e Raylson Chaves assinam juntos o roteiro e a montagem do filme.
O projeto tem produção executiva de Raylson Chaves, assistência de produção executiva de Ralfer Campagna, direção de fotografia de Franciella Cavalheri, assistência de fotografia de Kaique Silva e Leo Sales, e logger de Lukas Nascimento. A produção é de Mariane Lopes, com assistência de produção de Lukas Nascimento e Maura Menezes.
