Entre palavras, vozes e encontros: mulheres protagonizam a cena formativa do FestJuv
- eusoums

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A programação formativa do Festival da Juventude se desenhou como um território vivo de trocas, escuta e criação — e, nele, as mulheres ocuparam lugar de destaque, conduzindo reflexões, oficinas e experiências que atravessaram literatura, corpo, afeto e linguagem. Sem perder de vista o caráter coletivo do evento, foram elas que puxaram, com força e sensibilidade, alguns dos fios mais potentes do último dia de programação do evento.

Na oficina “Escrita Criativa”, a escritora Monique Malcher, do Estado do Pará, propôs um mergulho na observação do mundo como matéria-prima da ficção. Entre cadernos de campo, memórias e escuta sensível, jovens participantes foram convidados a perceber que escrever também é um modo de estar no mundo. “Quando você ministra uma oficina, você encontra pessoas num momento da vida que eu já estive, que é o início de um sonho, juventude. E não é só sobre ensinar, é também sobre aprender com eles e reacender em mim essa paixão pela literatura”, destacou.
Ao lado disso, a Oficina Slam: Vozes da Juventude, com Alessandra Coelho (RJ), transformou a palavra em performance e presença. A poesia falada apareceu como ferramenta de expressão e pertencimento, conectando experiências individuais a questões coletivas. “Os jovens experimentaram não apenas escrever, mas dizer — e se dizer — em público”.
A presença feminina também atravessou outras atividades do dia, como as oficinas: “Em Cena, a Ação” – Interpretação para Cinema e TV, com Shirley Cruz (RJ); “Criação e Desenvolvimento de Aplicativo para Celular”, com Giovanna Andrade e Maria Yasmim Simão (MS) e “Slam: Vozes da Juventude”, com Alessandra Coelho (RJ). Além das mesas que reuniram vozes de artistas do Estado, como: MC Serena, ao lado do rapper MC Miliciano, em que debateram a questão da “Juventude, Literatura e Oralidade na Periferia”, e Sarah Muricy e Maria Carol que trouxeram o tema “Diálogos entre escritoras: Mulheres e Literatura”. Mais do que a presença dessas mulheres, a programação apontou para uma escolha curatorial que reconhecesse a potência feminina.
“Acho muito bonita essa escolha do festival, porque as mulheres, nas artes, ainda são menos ouvidas, mesmo tendo trabalhos tão interessantes quanto. E, quando a gente ocupa esses espaços, também está dialogando com os meninos, porque pensar no futuro passa por todos nós”, completou Monique.
No fim da tarde, a palestra “Retrato do Amor Quando Jovem”, com a escritora e ativista indígena Geni Nuñez (PA), trouxe uma camada mais intimista à programação. Partindo da ideia de “artesania dos afetos”, Geni convidou o público a repensar as formas de amar e de se relacionar.
“Dá muito errado quando um grupo acha que a sua ideia de mundo serve para todos. A gente precisa ampliar as possibilidades, com respeito, diálogo e pensando no bem-estar desses jovens que estão descobrindo quem são”, afirmou.
Ao encerrar, a autora compartilhou um poema que ecoou como síntese da tarde quanto ao poder da ação e do diálogo. “O pássaro voar e não ter uma árvore para descansar, a borboleta passear e não ter uma flor para pousar…É por isso que eu digo: nossa fé não move montanhas, nos leva até elas”.
Na plateia, a estudante de zootecnia Thaís June, de 19 anos, que veio ao festival a convite de amigos da universidade, destacou o impacto da experiência. “Não estudo aqui, mas tenho amigos da UFMS que me falaram do festival e eu vim. Achei muito interessante, principalmente a fala da Geni, faz a gente pensar sobre muita coisa que a gente vive e nem sempre pensa de fato sobre essas questões”.
Presença masculina como aliada - Se as mulheres conduziram parte das experiências, a programação também contou com atividades importantes lideradas por homens, compondo esse cenário de forma colaborativa.
Na oficina “Capacitação de Mediadores de Leitura”, o historiador Vinicius Barbosa (SP) trouxe uma abordagem prática e crítica sobre o papel de formar leitores em tempos de excesso de informação.
Para ele, a mediação está presente em diferentes momentos da vida. “Todo mundo que lê teve um mediador em algum momento — na família, na escola, numa livraria. O que a gente propõe aqui é pensar isso como uma prática consciente, com técnica, estratégia”.
A oficina também provocou reflexões sobre o próprio ato de ler. “Existe um descompasso: todo mundo diz que ler é importante, mas poucos leem. E a leitura também exige treino, exige corpo, concentração. A gente precisa desromantizar um pouco isso para formar leitores de verdade”, completou.
Além dele, a programação incluiu outras oficinas, sendo “Tradução de Contos Africanos e de Ficção Científica”, com Elton Furnaletto (MS), e “Roteiro Cinematográfico”, com Joel Pizzini a oficina de cinema com Joel Pizzini (RJ), ampliando ainda mais o repertório de linguagens e possibilidades criativas oferecidas ao público.
FestJuv - Entre oficinas, falas e encontros, de 26 a 28 de março, o FestJuv consolidou mais do que uma agenda de atividades: construiu um espaço onde diferentes vozes puderam ser ouvidas, compartilhadas e reconhecidas. Um território onde aprender e ensinar a caminhar juntos, atravessados pela escuta, pela diversidade e pela potência de quem está criando, agora, os caminhos do presente. Toda a programação foi promovida dentro das dependências da UFMS em Campo Grande.
O Festival da Juventude é uma realização do Instituto Curumins, em parceria com a UFMS e o Ministério da Cultura, por meio de emenda parlamentar do deputado federal Vander Loubet, além do apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), do Fundo Nacional de Cultura e do Governo Federal. Conta ainda com o apoio da Secretaria de Estado da Cidadania, Subsecretaria da Juventude, Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura, Secretaria de Estado da Educação, Fundação de Cultura de MS, Educativa MS, Governo do Estado, da senadora Soraya Thronicke, da deputada federal Camila Jara e da Águas Guariroba.




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