top of page

Lucas Tors transforma a própria imagem em manifesto contra padrões de gênero no EP “PECADOR”

Em nova fase solo, artista aposta em estética andrógina, sonoridades latinas e pop para questionar masculinidade, religião e os rótulos que tentam definir como um homem deve existir


O que exatamente faz uma roupa ser “de homem”? E por que um cropped, um brinco ou uma base no rosto ainda podem provocar tanto incômodo quando usados por um corpo masculino? Lucas Tors parte dessas perguntas para construir a fase mais pessoal e provocativa de sua carreira.



Ator, cantor e performer, ele anuncia o EP “PECADOR”, primeiro projeto solo após o fim da dupla de reggaeton que mantinha com o irmão Leonardo Tors. Mais do que uma mudança musical, o trabalho funciona como uma declaração de liberdade. A estética andrógina, a performance de gênero e a recusa em se encaixar em códigos tradicionais de masculinidade passam a ocupar o centro de sua obra.



Para Lucas, essa identidade não apareceu de repente. Ela estava apenas reprimida.

“Eu costumo dizer que a minha identidade não surgiu, mas acordou. Deixei meu verdadeiro eu adormecido por tantos anos por medo do julgamento e, principalmente, medo do linchamento”, conta.


Esse processo atravessa memórias antigas. Aos oito anos, durante uma apresentação teatral como Rei Arthur, Lucas lembra do medo que sentiu ao aparecer diante da família usando legging e lápis preto nos olhos. A partir dali, comportamentos simples, como escolher determinada roupa ou expor o corpo em um vestiário, passaram a ser filtrados pelo receio de violência, humilhação ou de ter sua sexualidade definida pelos outros.


Segundo ele, uma mudança mais profunda começou em 2025, depois de anos de psicanálise e de questionamentos sobre quais partes de sua própria imagem realmente pertenciam a ele e quais haviam sido moldadas pela necessidade de aceitação.


Quando a roupa vira linguagem


Em “PECADOR”, roupas, maquiagem e corpo deixam de funcionar apenas como estética. Tornam-se parte do discurso.


Lucas assume uma imagem que combina referências tradicionalmente classificadas como masculinas e femininas sem interesse em separar uma coisa da outra. Para ele, a provocação está justamente em mostrar como essas fronteiras foram socialmente construídas.


“Se o fato de eu vestir um cropped, usar brincos e passar base no rosto incomoda tanto, quer dizer que eu lembro uma mulher e isso causa ódio em uma cabeça machista”, afirma.

O artista também rejeita a associação automática entre aparência e orientação sexual.

“Não gosto de ser rotulado e muito menos que deduzam minha orientação sexual por causa das minhas roupas.”


A nova fase nasce, portanto, de uma tentativa de devolver através da arte parte do desconforto que ele próprio experimentou durante anos.


“Chegou a hora de devolver o constrangimento, com arte, e eu sou ótimo fazendo isso”, diz.


Por que “PECADOR”?


O título do EP carrega outra camada importante da história de Lucas. Criado dentro da doutrina católica, ele cresceu ouvindo definições rígidas sobre comportamento, gênero e relacionamentos.


A palavra “pecador”, que em outro momento esteve associada ao medo e à culpa, agora é apropriada como símbolo de confronto.


“Eu cresci na igreja católica, sempre fui ensinado que homem era para mulher e mulher para homem, ensinado desde cedo em como mexer as mãos, qual o tom da risada e quais roupas deveria usar”, relembra.


Lucas faz questão de diferenciar sua crítica às estruturas e discursos religiosos de um ataque à fé individual.


“Jamais vou atacar a fé de ninguém, mas busco criticar narrativas. Narrativa é uma arma poderosíssima que influencia em massa, e se me influenciou à força, tenho todo o direito de criticar e recusar.”


Dentro do projeto, essa discussão também aparece em histórias amorosas não heteronormativas e na recusa em organizar símbolos, corpos e comportamentos dentro de uma divisão rígida entre masculino e feminino.


A faixa “PAHOY” será um dos principais pontos desse universo conceitual.

“A identidade visual é a fusão dessas duas energias opostas, que nunca foram separadas. A performance de gênero é ensinada e ensaiada. Não gosto e não aceito isso, então não trago para o meu trabalho”, explica.


Reggaeton, R&B, salsa e funk sem obrigação de escolher um gênero


Se visualmente “PECADOR” rejeita fronteiras, musicalmente o caminho é parecido.

O EP terá cinco faixas inéditas, cantadas em espanhol e inglês, transitando por reggaeton, R&B, afrobeat, salsa, bachata, funk, música eletrônica e pop. O projeto também contará com colaborações de artistas brasileiros.


A escolha dos idiomas tem relação direta com a biografia de Lucas. Natural de Sant’Ana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, ele cresceu em contato com diferentes línguas e culturas. Fluente em português, espanhol, inglês e árabe, o artista associa espanhol e inglês a lugares onde, durante parte da infância, sentia maior liberdade para se expressar.


A carreira solo surge depois de uma fase compartilhada com o irmão Leonardo Tors, com quem lançou dez músicas voltadas principalmente ao reggaeton e à música latina. Os dois decidiram seguir caminhos artísticos individuais, mas mantêm a parceria pessoal.


Para Lucas, entrar sozinho no estúdio também mudou sua relação com o processo criativo. Música, atuação, moda e performance passam a funcionar como partes de uma mesma narrativa.


Da televisão para uma era mais autoral


Lucas Tors começou no teatro ainda criança e construiu uma carreira que atravessa diferentes linguagens. Na televisão, participou de produções como Reis, Paulo, O Apóstolo e Garota do Momento. No audiovisual, também protagoniza Metástase, projeto de terror psicológico do qual é idealizador e produtor, além do longa DAVI – Até o Limite de um Adolescente.


Agora, a música assume um espaço cada vez mais central.


Mais do que simplesmente inaugurar uma carreira solo, “PECADOR” parece interessado em colocar em crise algumas das regras que Lucas passou boa parte da vida tentando seguir.


“Minha maior expectativa é ser tão livre de rótulos que as pessoas se sintam bem, junto comigo, por serem quem são. Eu quero liberdade para as consciências”, afirma.


No fim, a pergunta que move essa nova fase talvez seja justamente a mais simples: se uma roupa não tem gênero, por que ainda insistimos tanto em dizer quem pode vestir o quê?

 
 
 

Comentários


 ÚLTIMAS NOTÍCIAS:  #EUsouMS Entrevista: Descubra arte com a Galeria MEIA SETE

#EUsouMS POSTS-4.png
#EUsouMS POSTS-4_edited.png

© 2025 #EUsouMS 

Onde devo ir? Quem devo conhecer? Qual comida tenho que experimentar? Essas são algumas das perguntas fundamentais que nós fazemos diariamente. Com este espaço queremos mostrar para todos qual é a identidade do nosso estado. Este site surgiu com um único propósito: Ser o local de encontro e de referência da cultura, das pessoas, dos sabores e dos lugares do Mato Grosso do Sul. Por isso leia, conheça, compartilhe e viva o MS com a gente! 

  • Branco Facebook Ícone
  • Branco Twitter Ícone
  • Branca Ícone Instagram

Sugestão de pauta? contato.eusoums@gmail.com

Desenvolvido por facaseu.site

bottom of page