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Uma rifa, dois anos de economia e 14 horas de set: ANARA transforma o próprio corre no clipe de “Dopamina”

há 60 minutos
3 min de leitura

Primeiro videoclipe da cantora nasceu de uma mobilização familiar e transforma em imagens os custos, desejos e limites envolvidos na busca por um sonho


Antes do carro conversível, das trocas de figurino e das imagens cuidadosamente construídas para “Dopamina”, existiram dois anos de economia e uma conta que simplesmente não fechava.


Faltavam três meses para as gravações quando ANARA percebeu que ainda não tinha dinheiro suficiente para produzir os quatro materiais visuais que havia planejado. Artista independente, ela chegou a comunicar à mãe que desistiria do projeto.



A resposta veio em uma solução muito menos glamourosa do que aquilo que normalmente aparece em um videoclipe pop: uma rifa entre familiares.


“Minha mãe, que também é muito ambiciosa e é uma pessoa que me inspira muito nesse sentido, sugeriu que a gente fizesse uma rifa com os nossos familiares. A gente correu atrás. Conseguimos vender 150 nomes e completar o que faltava”, conta.


A mobilização permitiu que o primeiro videoclipe da cantora saísse do papel e, de certa maneira, fez os bastidores se aproximarem da própria história contada pela música.



O corre vira narrativa pop


“Dopamina” inaugura uma narrativa que ANARA pretende desenvolver até seu futuro álbum.


A cantora parte de temas muito presentes no rap e no trap, como desejo de ascensão, esforço e reconhecimento, mas transporta essa discussão para a linguagem do pop e para sua experiência como mulher preta e artista independente.


O videoclipe, dirigido por Lucas Sales e realizado em parceria com a Dramarama Discos, traduz esses sentimentos por meio de metáforas.


ANARA aparece sozinha no banho em uma representação dos momentos de introspecção e das decisões que precisa tomar. Em outro momento, dirige um carro antigo conversível em alta velocidade.


É justamente o automóvel que conduz a principal metáfora visual do projeto. A velocidade representa uma trajetória cada vez mais intensa, até que a personagem perde o controle e o carro bate.


Quando o corpo pede para parar


A colisão não funciona apenas como encerramento dramático do clipe. Ela terá consequências dentro da narrativa maior que ANARA está construindo para o álbum.

O acidente marca o momento em que a personagem encontra a exaustão e precisa confrontar os efeitos físicos e emocionais de uma vida conduzida sempre no limite.

A própria música acompanha essa transformação.


Produzida por DaniDrama e Tinno, “Dopamina” começa mais contida, conduzida pelo piano, antes de incorporar sintetizadores psicodélicos e referências ao synthpop dos anos 1980. No videoclipe, essa escalada desemboca no som da colisão e nas respirações ofegantes da personagem.


Quatro produções em duas diárias


Os bastidores também exigiram fôlego.


A cantora e a equipe concentraram a gravação de quatro materiais audiovisuais em apenas duas diárias, com jornadas que passaram das 14 horas e sucessivas mudanças de cabelo, unhas, maquiagem e figurino para criar identidades diferentes para cada produção.


“Foi cansativo. Foram mais de 14 horas ali, full time, trocando unha, cabelo, roupa, maquiagem, cabelo de novo, tudo para que cada material tivesse o seu próprio momento”, relembra.


ANARA também decidiu não utilizar inteligência artificial na construção do videoclipe. A intenção era apostar na atuação, na direção e nos elementos físicos do set para sustentar a narrativa.


“Eu não queria simplesmente aparecer olhando para a câmera e cantando. Queria que existisse uma mensagem por trás de cada coisa”, explica.


A escolha ajuda a apresentar uma artista interessada em construir um universo no qual música, imagem e narrativa funcionam como partes de uma mesma história.

E talvez seja justamente aquilo que não aparece no enquadramento que melhor explique o peso desse primeiro clipe.


Antes das câmeras serem ligadas, houve dois anos de economia, a possibilidade real de cancelar a produção e uma família mobilizada para vender 150 números de uma rifa.


“Dopamina” nasceu dessa combinação entre desejo artístico e os desafios bastante concretos de fazer pop de maneira independente no Brasil.

Foto: Divulgação

 
 
 

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