Do Pantanal às mãos do público: oficina transforma biodiversidade de MS em cerâmica no Festival de Inverno de Bonito
- eusoums

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Vivência comandada pela ceramista Samara Bertoches ensina técnicas de modelagem e mostra como tamanduás e outros animais do Estado podem aproximar arte, natureza e identidade regional
Antes de ganhar forma, um tamanduá pode ser apenas um pedaço de argila sobre a mesa. Aos poucos, pressão dos dedos, pequenos cortes e texturas transformam o material em patas, focinho e corpo. No Festival de Inverno de Bonito 2026, esse processo milenar também virou uma maneira de olhar para a biodiversidade de Mato Grosso do Sul.

A oficina “Bichinhos de Cerâmica”, comandada pela ceramista Samara Bertoches, de 28 anos, convida crianças e adultos a modelarem animais inspirados na fauna do Pantanal e do Estado.
Mais do que sair da atividade com uma peça pronta, a proposta é experimentar a cerâmica sem a ideia de que é preciso dominar técnicas complexas ou ter um ateliê cheio de equipamentos.
Cerâmica também pode começar com uma colher
Samara trabalha com cerâmica há três anos e parte de objetos bastante cotidianos para apresentar a técnica aos participantes. Colheres, palitos de churrasco e esponjas deixam suas funções habituais e passam a servir como ferramentas de modelagem.
“A cerâmica tem como ser um acesso para todos”, afirma.
A simplicidade dos instrumentos ajuda a derrubar uma possível barreira entre o público e o fazer artístico. Não é necessário ter experiência anterior, e a mesma orientação pode produzir resultados completamente diferentes.
Cada participante escolhe caminhos próprios para construir formas, volumes e texturas. Assim, mesmo quando duas pessoas decidem criar o mesmo animal, dificilmente as peças terminam iguais.
É justamente nessa diferença que a oficina encontra parte de sua força. A técnica é ensinada coletivamente, mas aquilo que sai das mãos de cada pessoa carrega uma interpretação particular.
Um tamanduá entre arte e biodiversidade
Entre os participantes está o engenheiro florestal Kelvin Monson, de 34 anos. Natural de Aquidauana e morador de Bonito há cinco anos, ele chegou à oficina carregando uma relação anterior com a cerâmica produzida por povos originários de Mato Grosso do Sul, especialmente Terena e Kadiwéu.
Kelvin já mantém peças indígenas em casa, mas desta vez decidiu acrescentar à coleção algo produzido pelas próprias mãos.
A escolha foi um tamanduá.
O animal, comum na região, desperta o interesse do engenheiro por sua morfologia e comportamento e acabou funcionando como ponto de encontro entre sua formação profissional e a experiência artística proposta pelo Festival.
O que começou como curiosidade também abriu outra possibilidade. Depois do contato com a argila, Kelvin passou a considerar continuar experimentando cerâmica e pintura.
A experiência, segundo ele, oferece uma sensação de liberdade e uma nova maneira de expressar criatividade.
Quando o artesanato também conta onde estamos
Ao escolher a fauna regional como ponto de partida, a oficina transforma a cerâmica em algo além de um exercício manual.
Tamanduás e outros animais deixam de aparecer apenas como símbolos turísticos de Mato Grosso do Sul e passam a ser reinterpretados individualmente por quem participa da atividade. É uma maneira simples de aproximar arte, biodiversidade e pertencimento.
A oficina integra um conjunto de cinco vivências criativas oferecidas durante o 25º Festival de Inverno de Bonito, realizado até domingo (30). A programação inclui ainda personalização de capivaras de pelúcia, atividades de economia circular e upcycling e duas oficinas de customização de ecobags.
Em meio aos grandes shows, palcos e espetáculos que movimentam Bonito durante cinco dias, experiências menores como essa revelam outra dimensão de um festival cultural.
Às vezes, o encontro com a identidade de um lugar não acontece diante de milhares de pessoas. Pode começar sentado ao redor de uma mesa, com um pouco de argila nas mãos e a tentativa de descobrir como transformar aquele pedaço de terra em um animal do Pantanal.
Foto: Elias Campos




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